Viva Feijão

Proteínas, amido, fibras e compostos bioativos fazem do Feijão matéria-prima para aplicações que vão da nutrição animal a embalagens biodegradáveis, cosméticos, suplementos e cápsulas farmacêuticas. Algumas dessas soluções já têm aplicações práticas, enquanto outras seguem em pesquisa, mostrando o potencial do grão para inovação, sustentabilidade e aproveitamento de resíduos.


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Muito além do prato: os outros usos do Feijão

Nutrição animal, cosméticos, embalagens biodegradáveis, suplementos e até cápsulas farmacêuticas estão entre as aplicações estudadas para diferentes tipos de Feijão

Quando pensamos em Feijão, a primeira imagem provavelmente é a de uma refeição bem brasileira, acompanhada de arroz e comida caseira. Mas as possibilidades desse grão vão muito além da alimentação humana.

Proteínas, amido, fibras e compostos bioativos presentes nos grãos e em seus subprodutos vêm despertando o interesse de pesquisadores e da indústria. Hoje, o Feijão já aparece em estudos e aplicações nas áreas de nutrição animal, cosméticos, biomateriais, suplementos e até na indústria farmacêutica.

Do campo à nutrição animal

Uma das aplicações mais conhecidas está no aproveitamento de pulses e seus coprodutos na alimentação animal.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) reúne estudos sobre o uso de Feijões e outros pulses como fontes de proteína e energia em dietas animais. Grãos fora do padrão de comercialização, palhadas e outros materiais da cadeia produtiva podem ganhar uma nova destinação, desde que sejam utilizados com processamento e formulação adequados, devido à presença natural de fatores antinutricionais em algumas variedades.

Além de agregar valor ao que poderia ser descartado, essa utilização ajuda a inserir a cadeia do Feijão em um modelo de economia circular.

Feijão que pode virar embalagem

O amido do Feijão também chama a atenção de pesquisadores interessados em substituir materiais derivados do petróleo.

Estudos publicados no Journal of the Science of Food and Agriculture já demonstraram a possibilidade de produzir filmes biodegradáveis utilizando amido de Feijão. Mais recentemente, pesquisadores utilizaram grãos rejeitados pela agroindústria como matéria-prima para esses materiais.

Também há trabalhos com farinha de Feijão-preto e Feijão-vermelho e pesquisas que combinam amido de Feijão com outros ingredientes naturais para desenvolver embalagens com propriedades de conservação dos alimentos.

Embora muitas dessas tecnologias ainda precisem avançar em custo, resistência e produção em escala, elas apontam um caminho interessante: transformar perdas da cadeia produtiva em novos produtos.

Do Feijão para os cosméticos

Parece improvável, mas componentes do Feijão também são pesquisados para a indústria cosmética.

A base CosIng, mantida pela Comissão Europeia, registra ingredientes derivados de Phaseolus vulgaris para utilização em formulações cosméticas.

Pesquisas científicas já avaliaram, por exemplo, extratos ricos em polifenóis do Feijão-preto e extratos de brotos de Feijão. Em testes laboratoriais, esses compostos apresentaram propriedades antioxidantes e características que despertam interesse para futuras aplicações em produtos destinados aos cuidados com a pele.

Isso não significa que consumir Feijão produza os mesmos efeitos de um cosmético. São extratos específicos, estudados em concentrações e formulações próprias. Mas o exemplo demonstra como os compostos presentes no grão podem ganhar usos bastante diferentes.

Cápsulas feitas com amido de Feijão

As propriedades tecnológicas do amido também levaram o Feijão para pesquisas na indústria farmacêutica.

Um estudo publicado na revista Food Chemistry avaliou a utilização de amido de Feijão-mungo na produção de filmes e cápsulas farmacêuticas rígidas, como alternativa vegetal a materiais tradicionalmente utilizados nessa indústria.

O Feijão-mungo (Vigna radiata) não é da mesma espécie do Feijão-comum (Phaseolus vulgaris), predominante no Brasil, mas é mais um exemplo de como diferentes Feijões podem fornecer matérias-primas para usos muito além da alimentação.

Feijão-branco nos suplementos

Outro mercado que já utiliza derivados do Feijão é o de suplementos alimentares.

Extratos de Feijão-branco são estudados por conter substâncias capazes de inibir a alfa-amilase, enzima envolvida na digestão do amido. Pesquisas clínicas vêm avaliando esses extratos há vários anos.

É importante, porém, não confundir um extrato concentrado utilizado em suplemento com o Feijão consumido normalmente nas refeições. Suplementos não substituem uma alimentação equilibrada e devem ser utilizados com orientação adequada.

Até ferramenta de laboratório

O Feijão chega também à pesquisa biomédica. A fito-hemaglutinina (PHA), uma lectina encontrada naturalmente em Phaseolus vulgaris, é utilizada em laboratórios para estimular a multiplicação de determinados tipos de células, especialmente linfócitos. Essa propriedade tornou um componente do Feijão uma ferramenta utilizada em pesquisas de imunologia e citogenética.

Um pequeno grão com grandes possibilidades

Alimento, fonte de proteínas, amido, fibras e compostos bioativos. Quanto mais a ciência conhece o Feijão, mais possibilidades surgem.

Algumas dessas aplicações já fazem parte de cadeias produtivas, enquanto outras continuam dentro dos laboratórios. Todas, porém, mostram um caminho em comum: aproveitar melhor cada parte do grão e encontrar valor inclusive naquilo que poderia ser considerado resíduo.

Depois de milhares de anos alimentando populações, o Feijão continua mostrando sua capacidade de se reinventar. E, entre embalagens, cosméticos, suplementos e pesquisas científicas, uma coisa não muda: seu lugar de destaque na alimentação continua sendo difícil de substituir. Viva o Feijão!