Viva Feijão

Estudos associam o hábito de preparar a própria comida a uma alimentação de melhor qualidade, com maior presença de alimentos in natura e menor consumo de ultraprocessados. Além de favorecer escolhas mais conscientes, cozinhar amplia a autonomia, ajuda a preservar tradições alimentares e pode ser incorporado à rotina com preparações simples, como o tradicional arroz e Feijão.

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 Por que preparar a própria comida é também cuidar da saúde?

Estudos associam o hábito de cozinhar em casa a uma alimentação de melhor qualidade, menor consumo de ultraprocessados e mais autonomia para fazer escolhas alimentares

Escolher os ingredientes, lavar, cortar, temperar, colocar a panela no fogo e esperar o cheiro da comida tomar conta da cozinha. Em uma rotina cada vez mais corrida, cozinhar pode parecer apenas mais uma tarefa. Mas preparar a própria comida tem um significado muito maior.

A ideia de que cozinhar também é uma forma de autocuidado, abordada pelo projeto Viva Feijão, encontra respaldo em estudos sobre comportamento alimentar. A ciência não diz que toda comida feita em casa é automaticamente saudável — afinal, tudo depende dos ingredientes e da forma de preparo. Mas as pesquisas mostram uma associação consistente entre cozinhar com maior frequência e ter uma alimentação de melhor qualidade.

Quem cozinha mais tende a comer melhor

Um estudo publicado na revista Public Health Nutrition analisou dados de 8.668 adultos e observou que aqueles que viviam em casas onde o jantar era preparado sete ou mais vezes por semana apresentavam pontuações melhores no índice utilizado para avaliar a qualidade global da alimentação do que aqueles que cozinhavam apenas até duas vezes por semana. A associação apareceu tanto entre pessoas de menor quanto de maior renda.

Outro trabalho, publicado em 2024, analisou 9.491 adultos e chegou a uma conclusão especialmente interessante: quanto maior a frequência de preparo do jantar em casa, menor era a participação dos alimentos ultraprocessados na dieta e maior a presença dos alimentos in natura ou minimamente processados. Quem cozinhava diariamente consumia, em média, 6,3 pontos percentuais menos energia proveniente de ultraprocessados do que quem cozinhava de zero a duas vezes por semana.

É aí que preparar a própria comida ganha uma vantagem simples, fica muito mais fácil saber o que está indo para o prato. Arroz, Feijão, legumes, verduras, ovos, carnes, frutas e tantos outros alimentos podem ser combinados de inúmeras formas. Quem cozinha também decide quanto sal usar, quais temperos acrescentar e quais ingredientes fazem sentido naquela refeição.

Menos espaço para os ultraprocessados

Cozinhar em casa não significa que todo alimento industrializado precise desaparecer da despensa. O ponto está na base da alimentação. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados sejam a base da alimentação e destaca o desenvolvimento e a transmissão das habilidades culinárias como parte importante desse processo. O próprio Ministério da Saúde aponta que saber cozinhar aumenta a autonomia para preparar refeições e facilita a adoção de uma alimentação adequada e saudável.

E reduzir a dependência de ultraprocessados não é uma recomendação sem fundamento.

Em um experimento controlado realizado pelo National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, 20 adultos receberam, em momentos diferentes, dietas compostas por alimentos ultraprocessados e por alimentos minimamente processados. Embora as refeições oferecidas fossem planejadas para ter quantidades semelhantes de nutrientes como açúcar, gordura, fibras e carboidratos, durante a fase dos ultraprocessados os participantes consumiram cerca de 500 calorias a mais por dia e ganharam peso. Quando seguiram a dieta com alimentos minimamente processados, ocorreu o movimento oposto.

Uma ampla revisão publicada no British Medical Journal (BMJ) em 2024 também encontrou associações entre maior exposição aos ultraprocessados e uma série de desfechos negativos de saúde, embora os níveis de evidência variem conforme o desfecho analisado.

Saber cozinhar também dá autonomia

Há outro benefício que não aparece diretamente no prato: a confiança para fazer escolhas. E há pesquisa brasileira mostrando isso.

Um estudo randomizado conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) avaliou um programa de educação culinária com universitários brasileiros. Durante seis semanas, os estudantes participaram de aulas práticas de cozinha e de atividades relacionadas à escolha dos alimentos.

Os participantes apresentaram melhora no conhecimento culinário, na confiança para cozinhar e utilizar frutas, verduras e temperos e na disponibilidade desses alimentos em casa. Vários desses resultados continuaram presentes seis meses depois da intervenção.

Aprender a cozinhar, portanto, não precisa significar dominar receitas elaboradas. Saber fazer um bom arroz e Feijão, preparar alguns legumes, uma salada, um ovo ou reaproveitar ingredientes que estão na geladeira já aumenta o repertório e reduz a dependência de opções prontas.

Cozinhar também preserva cultura e memória

Existe ainda uma dimensão que os números não conseguem contar completamente.

Receitas são também memória. O Feijão temperado de uma família, a sopa preparada pelos avós, o prato típico de uma região e aquele jeito particular de refogar alho e cebola carregam histórias e conhecimentos transmitidos entre gerações.

O Guia Alimentar brasileiro reconhece essa dimensão social e cultural da alimentação e recomenda não apenas desenvolver habilidades culinárias, mas também compartilhá-las. Preparar e comer refeições em companhia ajuda a manter vivas tradições alimentares e a devolver à comida um espaço que vai muito além da simples necessidade de matar a fome.

Não é preciso cozinhar todos os dias do zero

Talvez esse seja o ponto mais importante para quem lê tudo isso pensando: “Mas eu não tenho tempo”. Cozinhar mais não precisa significar passar horas diariamente diante do fogão.

O Feijão é um ótimo exemplo. Uma panela preparada de uma só vez pode ser dividida em porções e congelada. Arroz, legumes e outras preparações podem ser planejados para mais de uma refeição. Com organização, a comida caseira também pode ser prática.

Não é preciso buscar uma alimentação perfeita, nem transformar a cozinha em uma obrigação pesada. Começar pelo básico já conta.

Porque, no fim das contas, cozinhar é muito mais do que seguir uma receita. É conhecer melhor aquilo que comemos, recuperar autonomia sobre nossas escolhas e manter alimentos de verdade presentes na rotina.

E se nessa panela tiver um Feijão bem temperadinho, melhor ainda.