Estudo com mais de 46 mil brasileiros associou o maior consumo de arroz e Feijão a dietas com menos inadequações nutricionais, menor custo e impactos ambientais reduzidos. A combinação esteve relacionada a 44% menos inadequações, 38% menos gastos, 18% menos emissões de carbono e 21% menor pegada hídrica.
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Arroz e Feijão: tradição brasileira faz bem à saúde, ao bolso e ao planeta
Poucos alimentos representam tanto o Brasil quanto o arroz e o Feijão. Presente diariamente na mesa de milhões de famílias, essa combinação vai muito além da tradição e do sabor – uma nova pesquisa mostra que ela pode contribuir simultaneamente para uma alimentação mais equilibrada, acessível e sustentável.
O estudo, publicado em abril de 2026 na revista científica Public Health Nutrition, analisou informações de 46.164 brasileiros com 10 anos ou mais. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Faculdade de Saúde Pública e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo, o Nupens/USP, em colaboração com pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia.
Um retrato da alimentação brasileira
Os pesquisadores utilizaram dados do módulo de consumo alimentar individual da Pesquisa de Orçamentos Familiares — POF 2017-2018, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.
A amostra é representativa da população brasileira e abrange todas as regiões, estados, capitais, áreas metropolitanas e zonas urbanas e rurais do país. Cada participante registrou os alimentos e bebidas consumidos, permitindo que os pesquisadores avaliassem a composição nutricional, o custo e as pegadas de carbono e de água da alimentação.
Na média nacional, o arroz respondeu por 10,75% das calorias consumidas diariamente, enquanto o Feijão representou 6,33%. Juntos, portanto, os dois alimentos forneceram aproximadamente um sexto da energia da dieta dos brasileiros.
O consumo foi observado em todos os grupos sociais analisados, embora tenha sido maior entre homens, pessoas negras, moradores de áreas rurais e habitantes da região Centro-Oeste. A participação da dupla na dieta foi menor no Sul, onde o arroz representou 8,43% das calorias e o Feijão, 4,55%, e maior no Centro-Oeste, com 13,27% e 7,18%, respectivamente.
Menos inadequações nutricionais no prato
Para avaliar a qualidade da alimentação, os pesquisadores analisaram sete indicadores – consumo de açúcar adicionado, gorduras totais, gorduras saturadas, gorduras trans, fibras, sódio e potássio.
Entre as pessoas que consumiam menores proporções de arroz e Feijão, a média foi de 4,54 inadequações nutricionais. No grupo com maior participação da dupla na dieta, essa média caiu para 2,52. A diferença representa uma redução de 44,49% no número de inadequações.
As dietas com mais arroz e Feijão apresentaram menores quantidades de açúcar adicionado, gorduras totais, saturadas e trans. Ao mesmo tempo, forneceram mais fibras, ferro, potássio, proteínas e carboidratos. Esses resultados permaneceram significativos mesmo depois de os pesquisadores considerarem fatores como idade, sexo, renda, escolaridade, região e local de residência.
O sódio foi a exceção – seu consumo não melhorou à medida que aumentava a presença de arroz e Feijão. O achado reforça a importância de moderar o uso de sal, temperos prontos, embutidos e outros ingredientes ricos em sódio no preparo das refeições.
O Feijão, quando preparado com alho, cebola, ervas, especiarias e quantidades moderadas de sal, pode manter seu sabor característico sem que seja necessário exagerar no sódio.
Muito mais que a soma de dois alimentos
A qualidade nutricional dessa combinação também está relacionada à complementaridade entre cereais e pulses. O arroz possui maior quantidade de alguns aminoácidos que aparecem em menor proporção no Feijão. O Feijão, por sua vez, complementa o cereal com outros aminoácidos essenciais, além de fornecer proteínas vegetais, fibras, ferro, potássio e diferentes compostos bioativos.
Isso não significa que o prato deve se limitar aos dois alimentos. Uma refeição equilibrada pode incluir arroz, Feijão, verduras, legumes e uma fonte de proteína, respeitando os hábitos, as necessidades e as possibilidades de cada família.
Na prática, quem mantém arroz e Feijão no dia a dia também tende a preservar uma estrutura mais tradicional de refeição, baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, em vez de substituir o almoço e o jantar por produtos ultraprocessados.
Uma escolha que também pesa menos no planeta
O trabalho da USP não avaliou apenas nutrientes. Os pesquisadores estimaram também a pegada de carbono, relacionada à emissão de gases de efeito estufa, e a pegada hídrica, que representa o volume de água associado à produção dos alimentos consumidos.
Nas dietas com menor participação de arroz e Feijão, a pegada de carbono média foi estimada em 4.984 gramas de dióxido de carbono equivalente por dia. Entre os maiores consumidores da dupla, caiu para 4.105 gramas, uma redução de 17,64%.
A pegada de água passou de aproximadamente 4.522 para 3.570 litros diários, diferença de 21,05%. Esses números representam o volume de água empregado ao longo das cadeias produtivas dos alimentos que compõem a dieta, e não a água utilizada diretamente pelas pessoas durante as refeições.
Uma das vantagens ambientais das pulses está em sua capacidade de estabelecer uma relação com bactérias que realizam a fixação biológica do nitrogênio. Esse processo pode enriquecer o sistema produtivo e reduzir, em determinadas condições de manejo, a necessidade de fertilizantes nitrogenados sintéticos.
Alimentação saudável que cabe no orçamento
A pesquisa também encontrou uma diferença expressiva no custo total da alimentação. Considerando os preços do período analisado, a dieta do grupo com menor participação de arroz e Feijão custava, em média, R$ 9,94 por dia. Entre aqueles com maior consumo dos dois alimentos, o valor caiu para R$ 6,16 — uma redução de 38,03%.
Os valores são referentes à POF 2017-2018 e não devem ser interpretados como preços atuais. O aspecto mais importante é a relação encontrada – naquele período, os padrões alimentares com maior presença de arroz e Feijão apresentavam custo total significativamente menor.
A dupla oferece uma combinação especialmente valiosa de energia, proteínas, fibras e micronutrientes por um preço tradicionalmente acessível. Em um cenário no qual muitas famílias precisam equilibrar saúde e orçamento, preservar esses alimentos no cotidiano pode ser uma estratégia importante de segurança alimentar.
Associação não significa causa direta
O estudo é transversal, ou seja, analisou o consumo dos participantes em determinado período. Por isso, não permite afirmar que comer mais arroz e Feijão, isoladamente, causou todas as diferenças observadas.
Os resultados mostram uma associação – pessoas cuja dieta tinha maior participação da dupla também apresentavam, de maneira geral, um padrão alimentar nutricionalmente melhor, mais barato e de menor impacto ambiental. Outros aspectos do estilo de vida e das escolhas alimentares podem participar dessa relação.
Ainda assim, a dimensão da amostra, sua representatividade nacional e a permanência dos resultados após os ajustes sociodemográficos dão força às conclusões apresentadas pelos autores.
Valorizar o que o Brasil já sabe fazer
Enquanto diferentes países procuram formas de tornar a alimentação mais saudável e sustentável, o Brasil já possui uma resposta culturalmente conhecida e aceita – fortalecer refeições de verdade, preparadas com alimentos básicos e variados.
O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados sejam a base da alimentação. Também apresenta o arroz com Feijão como uma combinação completa, nutritiva, saborosa e integrante da cultura alimentar do país.
A pesquisa da USP acrescenta novos dados a essa recomendação. Além de colaborar com a ingestão de fibras, proteínas e minerais, a dupla está associada a menos inadequações nutricionais, menor impacto ambiental e redução no custo da dieta.
Valorizar o Feijão brasileiro significa, portanto, preservar muito mais do que uma tradição. Significa apoiar um alimento que conecta agricultura, cultura, saúde pública, sustentabilidade e segurança alimentar — todos os dias, em uma única concha servida no prato.